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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Noturno à janela do apartamento



Noturno à janela do apartamento

Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração da noite.

Nenhum pensamento de infância
nem saudade nem vão propósito
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.

A soma da vida é nula
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.

Suicídio, riqueza, ciência...
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.


Triste farol da ilha Rasa.

Carlos Drummond de Andrade

Foto de arquivo particular de Sônia Vianna Landeo, para reprodução, favor solicitar pelo comentário com nome e e-mail.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meu caro Drummond



Queria lhe falar...


Quando nasci, um anjo dourado
De asas abertas me olhou e disse:
Que seja!

Tentando entender, cresci...
Entre as brincadeiras de roda,
Idas e vindas da escola,
E quando dei por mim me envolvi...

Que seja em sim respondi
A um pedido simbolizando amor.
Que seja entre raios e trovões,
Eu entendi...

Entre o querer ser e o ser,
Há uma enorme emoção,
Paixão ódio rancor ou o que for.

Que seja é o que se escolhe,
Que seja é o que se aceita,
Que seja é o que não se rejeita,
Que seja é o que se envolve.

Anjo, Anjo dourado...
E quem sabe escolher?
Quem aceita sem rejeitar?
E, no entanto todos se envolvem...

Anjo dourado, calado.
Por que não vem me responder?
Amei, chorei, desesperei, mas sorri...

Que seja anjo calado,
Seu desejo uma ordem!
Mas devo confessar,
Que seja eu o meu criar. 

domingo, 1 de junho de 2008

A UM AUSENTE



A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudades,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral,
a comum aquiescência de viver
e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderia ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação,
o ato em si, o ato que não ousamos
nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos,
nem isso,
voz modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te
porque fizeste o não previsto nas leis da amizade
e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito
de indagar porque o fizeste,
porque te foste.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE